*Reportagem realizada como último trabalho da disciplina Jornalismo Cultural.
Conheça a
vida de Raquel, a grafiteira mais solicitada da capital
Paula Cordeiro
Raíssa Pedrosa
Nascida na
cidade de Itabira, Maria Raquel Alves Couto Ramiro, 28 anos, agora conhecida
como Raquel Bolinho, veio para Belo Horizonte (BH) em 2005, formou-se em Letras
em 2009 e, por bastante tempo, se dedicou a dar aulas de português e
inglês. Ela começou a pintar os bolinhos
nos muros e viadutos também nesse ano e, aos poucos, percebeu que teria que se
dedicar somente a eles. Por isso, há mais um menos um ano, Raquel vive somente
do bolinho, ou seja, somente de trabalhos relacionados ao bolinho. Além do
grafite em si, feito em muros da cidade, ela faz desenhos personalizados nas
casas das pessoas e também produz telas e gravuras.
Ao chegarmos
para realizar a entrevista em sua casa, no bairro Jaraguá, ela nos recebeu com
simpatia. Simples e gentil, nos atendeu no segundo andar. Com várias tatuagens
espalhadas pelos braços, inclusive dos próprios bolinhos, ela passou a
impressão de ser uma pessoa descolada e “antenada” com o mundo.
De acordo com
ela, nunca teve muita habilidade com os desenhos, ao contrário do que muitos
podem pensar. A influência, na verdade, veio de seu namorado, que já era
grafiteiro. O interesse pela arte, primeiramente, veio da possibilidade de usar
a cidade como um espaço para pintar e interagir, de alguma forma, com quem
passava na rua enquanto ela pintava. Para ela, a graça da coisa foi tentar
fazer com que as pessoas que transitam pela cidade todos os dias, criassem
laços afetivos, ao invés de apenas usar as ruas como passagem para seus lugares
de destino.
Em meio a tudo isso, surgiu a vontade de ter um desenho só seu, fruto de
algo que ela sempre gostou. Nascia então o bolinho! Raquel sempre gostou de
cozinhar, fazer bolos e cupcakes e, assim, resolveu adaptá-los. Ela buscou,
então, fazer um desenho simples, mas que pudesse se tornar uma ferramenta para
a criação dos laços com a cidade. Por isso, ela não assina suas obras. Para
ela, a relação das pessoas com o bolinho é mais importante.
Raquel Bolinho
Numerosos e famosos
Atualmente existem vários tipos de bolinhos, são mais de 400 espalhados
pela capital mineira e Itabira. Cada um de um jeito, imitando animais, por
exemplo, mas sempre no formato de um cupcake. Eles estão fazendo muito sucesso
e já ganharam fãs por ai. Segundo Raquel, ela passou a receber muitas fotos
tiradas dos bolinhos e já não sabia o que fazer com elas. Diante disso, veio a
ideia do site “Amigos de bolinho”. Além de abrigar as fotos recebidas, o espaço
conta com um mapa, onde são indicados os locais que estão os bolinhos.
Os seguidores
são fiéis. Quando perguntada sobre a existência de pessoas que acompanham seu
trabalho com afinco, Raquel responde sem pestanejar: “Tem sim, a Amanda”. A
pedagoga Amanda Renata Fonseca Teixeira de Araújo, 35 anos, tem mais de 100
fotos dos bolinhos. Tudo começou com uma brincadeira de seus filhos Gabriel, 8
anos, Alice, 7, e Caio, 4. Os meninos começaram a perceber a presença do
bolinho nos muros a caminho da escola e, quando a história de Raquel passou na
televisão, a busca por bolinhos se intensificou. As crianças, junto com os
primos e colegas da escola, passaram a disputar quem via o bolinho primeiro e
anunciar “peguei!”. “Quando vi que isso era muito intenso entre eles, eu pensei
‘temos que registrar’, eu sei o quanto é importante dar atenção ao que eles
estão fazendo”, conta Amanda, que passou a andar pela cidade em busca de
bolinhos. “Começamos a fotografar no carnaval. Nós andamos por BH inteira em
busca de bolinhos”, lembra.
A febre de
bolinhos na família de Amanda é tão grande que os familiares mais distantes
também fotografam bolinhos na rua e mandam as fotos para ela. Os sobrinhos
também pedem para imprimir bolinhos preto e branco para eles colorirem.
Inclusive, foi uma tia de Amanda que descobriu quem era a artista por trás dos
cupcakes. Desde o primeiro contato as relações entre a grafiteira e a pedagoga
se intensificaram. Hoje, Raquel e Amanda conversam quase diariamente por
telefone. A artista, inclusive, vai fazer a festa de aniversário do Caio toda
de bolinhos. Uma parte da família também vai uniformizada com camisetas do
personagem para o aniversário.
Isso mesmo,
camisetas. Raquel agora investiu em uma loja virtual com diversos produtos com
a marca do bolinho. Certo tempo atrás, ela teve a experiência de fazer uma
parceria, quando alguns produtos do bolinho foram confeccionados. Hoje, os
produtos não têm parceria, são marca própria. Dentre eles estão roupas, canecas
e capinhas para celular, que são vendidos na loja virtual, criada pela própria artista.
Canecas e camisas são opções de objetos do bolinho
Outro fiel
seguidor dos bolinhos e mais um dos clientes da loja virtual é o jornalista
Luiz Cabral Inácio, 34 anos. Para Raquel, ele é o padrinho do bolinho. Luiz
começou a perceber o bolinho nas ruas de BH no início do ano passado. Ele
olhou, observou, gostou e começou a fotografar, pois se identificou com o
personagem.
Luiz passou a
publicar as fotos em suas redes sociais e foi questionado pelos amigos que
também se interessaram pelo personagem. Luiz então descobriu a página de Raquel
no Facebook e passou a segui-la. Uma amiga fez a ponte entre o jornalista e a
grafiteira. Após o contato, Luiz passou a seguir mais o trabalho de Raquel, e
também já criou laços de amizade com a moça. Para ele, ela tem um grande
futuro. “A tendência é ela crescer, porque ela é uma artista que tem muita
criatividade. Com o bolinho ela pode fazer o que quiser. Pode recriar vários
personagens em forma de bolinho”, acredita.
Raquel sabe de
sua capacidade de criação, mas conta que a criatividade de quem pede que ela
desenhe vai além do esperado. Certa vez, ela precisou fazer um bolinho do
personagem Shrek. “Tive que fazer uns 12 desenhos até chegar no ideal”,
recorda.
Sem hora e em qualquer lugar
Diferente de
alguns artistas, Raquel é objetiva na hora de grafitar. Muitas vezes, ela para
no meio de um caminho, encontra um muro interessante e faz seu desenho. Segundo
ela, muitos grafiteiros costumam ficar pintando por horas e apreciando a obra e
ela, não. Ela pinta, vê se ficou bom, faz uma foto para guardar recordação e segue
a vida, sem perder tempo.
Tempo. Essa
palavra está quase extinta do vocabulário de Raquel. Sua vida está se resume em
trabalhar em cima dos produtos e do grafite do bolinho, além de responder a
várias entrevistas. Enquanto conversávamos, o telefone vibrou diversas vezes,
até que certo momento ela precisou atender. Era a próxima equipe que iria
entrevistá-la pedindo para adiar mais algumas horas. “Viu gente? Eu não posso
planejar meu dia”, expressou. Com a correria de ambas as partes, a nossa
entrevista também foi uma das que precisou ser remarcada algumas vezes.
De certa forma,
ela até possui uma rotina. Trabalha de madrugada, devido ao barulho da sua rua
durante o dia. De acordo com ela, esse horário tem a tranquilidade que ela
precisa para pensar e produzir. Levanta às 11h, lê e responde e-mails e, à
partir daí, o restante do dia é incerto.
A casa de Raquel tem bolinho para todo lado
Muito simples,
Raquel não cria seus personagens para passar algum tipo de crítica política ou
mensagem. Como já dissemos, o mais importante é a interação. Além disso, para
ela o grafite não é a melhor saída para projetos sociais, por exemplo.
Entretanto, ela acredita que, se for considerado uma introdução para arte, o
grafite é um meio muito interessante, que pode trazer outras formas de crianças
e jovens se expressarem.
Despedimo-nos de Raquel na porta de sua casa. Acreditando que, logo em seguida, ela teria muitos afazeres antes da próxima entrevista.