domingo, 1 de junho de 2014

DA LOUSA PARA OS MUROS

*Reportagem realizada como último trabalho da disciplina Jornalismo Cultural.

Conheça a vida de Raquel, a grafiteira mais solicitada da capital


Paula Cordeiro
Raíssa Pedrosa

Nascida na cidade de Itabira, Maria Raquel Alves Couto Ramiro, 28 anos, agora conhecida como Raquel Bolinho, veio para Belo Horizonte (BH) em 2005, formou-se em Letras em 2009 e, por bastante tempo, se dedicou a dar aulas de português e inglês.  Ela começou a pintar os bolinhos nos muros e viadutos também nesse ano e, aos poucos, percebeu que teria que se dedicar somente a eles. Por isso, há mais um menos um ano, Raquel vive somente do bolinho, ou seja, somente de trabalhos relacionados ao bolinho. Além do grafite em si, feito em muros da cidade, ela faz desenhos personalizados nas casas das pessoas e também produz telas e gravuras.

Ao chegarmos para realizar a entrevista em sua casa, no bairro Jaraguá, ela nos recebeu com simpatia. Simples e gentil, nos atendeu no segundo andar. Com várias tatuagens espalhadas pelos braços, inclusive dos próprios bolinhos, ela passou a impressão de ser uma pessoa descolada e “antenada” com o mundo.
De acordo com ela, nunca teve muita habilidade com os desenhos, ao contrário do que muitos podem pensar. A influência, na verdade, veio de seu namorado, que já era grafiteiro. O interesse pela arte, primeiramente, veio da possibilidade de usar a cidade como um espaço para pintar e interagir, de alguma forma, com quem passava na rua enquanto ela pintava. Para ela, a graça da coisa foi tentar fazer com que as pessoas que transitam pela cidade todos os dias, criassem laços afetivos, ao invés de apenas usar as ruas como passagem para seus lugares de destino.
Em meio a tudo isso, surgiu a vontade de ter um desenho só seu, fruto de algo que ela sempre gostou. Nascia então o bolinho! Raquel sempre gostou de cozinhar, fazer bolos e cupcakes e, assim, resolveu adaptá-los. Ela buscou, então, fazer um desenho simples, mas que pudesse se tornar uma ferramenta para a criação dos laços com a cidade. Por isso, ela não assina suas obras. Para ela, a relação das pessoas com o bolinho é mais importante.


 Raquel Bolinho

Numerosos e famosos

Atualmente existem vários tipos de bolinhos, são mais de 400 espalhados pela capital mineira e Itabira. Cada um de um jeito, imitando animais, por exemplo, mas sempre no formato de um cupcake. Eles estão fazendo muito sucesso e já ganharam fãs por ai. Segundo Raquel, ela passou a receber muitas fotos tiradas dos bolinhos e já não sabia o que fazer com elas. Diante disso, veio a ideia do site “Amigos de bolinho”. Além de abrigar as fotos recebidas, o espaço conta com um mapa, onde são indicados os locais que estão os bolinhos.
Os seguidores são fiéis. Quando perguntada sobre a existência de pessoas que acompanham seu trabalho com afinco, Raquel responde sem pestanejar: “Tem sim, a Amanda”. A pedagoga Amanda Renata Fonseca Teixeira de Araújo, 35 anos, tem mais de 100 fotos dos bolinhos. Tudo começou com uma brincadeira de seus filhos Gabriel, 8 anos, Alice, 7, e Caio, 4. Os meninos começaram a perceber a presença do bolinho nos muros a caminho da escola e, quando a história de Raquel passou na televisão, a busca por bolinhos se intensificou. As crianças, junto com os primos e colegas da escola, passaram a disputar quem via o bolinho primeiro e anunciar “peguei!”. “Quando vi que isso era muito intenso entre eles, eu pensei ‘temos que registrar’, eu sei o quanto é importante dar atenção ao que eles estão fazendo”, conta Amanda, que passou a andar pela cidade em busca de bolinhos. “Começamos a fotografar no carnaval. Nós andamos por BH inteira em busca de bolinhos”, lembra.
A febre de bolinhos na família de Amanda é tão grande que os familiares mais distantes também fotografam bolinhos na rua e mandam as fotos para ela. Os sobrinhos também pedem para imprimir bolinhos preto e branco para eles colorirem. Inclusive, foi uma tia de Amanda que descobriu quem era a artista por trás dos cupcakes. Desde o primeiro contato as relações entre a grafiteira e a pedagoga se intensificaram. Hoje, Raquel e Amanda conversam quase diariamente por telefone. A artista, inclusive, vai fazer a festa de aniversário do Caio toda de bolinhos. Uma parte da família também vai uniformizada com camisetas do personagem para o aniversário.
Isso mesmo, camisetas. Raquel agora investiu em uma loja virtual com diversos produtos com a marca do bolinho. Certo tempo atrás, ela teve a experiência de fazer uma parceria, quando alguns produtos do bolinho foram confeccionados. Hoje, os produtos não têm parceria, são marca própria. Dentre eles estão roupas, canecas e capinhas para celular, que são vendidos na loja virtual, criada pela própria artista.

 Canecas e camisas são opções de objetos do bolinho

Outro fiel seguidor dos bolinhos e mais um dos clientes da loja virtual é o jornalista Luiz Cabral Inácio, 34 anos. Para Raquel, ele é o padrinho do bolinho. Luiz começou a perceber o bolinho nas ruas de BH no início do ano passado. Ele olhou, observou, gostou e começou a fotografar, pois se identificou com o personagem.
Luiz passou a publicar as fotos em suas redes sociais e foi questionado pelos amigos que também se interessaram pelo personagem. Luiz então descobriu a página de Raquel no Facebook e passou a segui-la. Uma amiga fez a ponte entre o jornalista e a grafiteira. Após o contato, Luiz passou a seguir mais o trabalho de Raquel, e também já criou laços de amizade com a moça. Para ele, ela tem um grande futuro. “A tendência é ela crescer, porque ela é uma artista que tem muita criatividade. Com o bolinho ela pode fazer o que quiser. Pode recriar vários personagens em forma de bolinho”, acredita.
Raquel sabe de sua capacidade de criação, mas conta que a criatividade de quem pede que ela desenhe vai além do esperado. Certa vez, ela precisou fazer um bolinho do personagem Shrek. “Tive que fazer uns 12 desenhos até chegar no ideal”, recorda.

Sem hora e em qualquer lugar

Diferente de alguns artistas, Raquel é objetiva na hora de grafitar. Muitas vezes, ela para no meio de um caminho, encontra um muro interessante e faz seu desenho. Segundo ela, muitos grafiteiros costumam ficar pintando por horas e apreciando a obra e ela, não. Ela pinta, vê se ficou bom, faz uma foto para guardar recordação e segue a vida, sem perder tempo.
Tempo. Essa palavra está quase extinta do vocabulário de Raquel. Sua vida está se resume em trabalhar em cima dos produtos e do grafite do bolinho, além de responder a várias entrevistas. Enquanto conversávamos, o telefone vibrou diversas vezes, até que certo momento ela precisou atender. Era a próxima equipe que iria entrevistá-la pedindo para adiar mais algumas horas. “Viu gente? Eu não posso planejar meu dia”, expressou. Com a correria de ambas as partes, a nossa entrevista também foi uma das que precisou ser remarcada algumas vezes.
De certa forma, ela até possui uma rotina. Trabalha de madrugada, devido ao barulho da sua rua durante o dia. De acordo com ela, esse horário tem a tranquilidade que ela precisa para pensar e produzir. Levanta às 11h, lê e responde e-mails e, à partir daí, o restante do dia é incerto.

A casa de Raquel tem bolinho para todo lado

Muito simples, Raquel não cria seus personagens para passar algum tipo de crítica política ou mensagem. Como já dissemos, o mais importante é a interação. Além disso, para ela o grafite não é a melhor saída para projetos sociais, por exemplo. Entretanto, ela acredita que, se for considerado uma introdução para arte, o grafite é um meio muito interessante, que pode trazer outras formas de crianças e jovens se expressarem.
Despedimo-nos de Raquel na porta de sua casa. Acreditando que, logo em seguida, ela teria muitos afazeres antes da próxima entrevista.

Nenhum comentário:

Postar um comentário