segunda-feira, 30 de novembro de 2015

#PorMaisAmizadesPresenciais

Você abre o Facebook e vê que seu amigo está fazendo aniversário e publica um “Parabéns!” seguido de um textão desejando-lhe felicidades. Um amigo publica algo interessante, você curte, comenta e conversa com ele pelo comentários. Sua  amiga posta foto fazendo biquinho no Instagram e você comenta “Linda!”, seguida de um convite para sair. Depois outra amiga posta uma foto da viagem e você comenta “Que saudade!”. Daí, você está andando na rua e se depara, em alguma ocasião, com um desses amigos (que pelas redes sociais parecem amigões) e… vocês se olham, sorriem, balançam a cabeça e dizem “oi” (isso quando simplesmente não se olham e apenas pensam “olha aquela menina do Face”).


Identificou-se?


Pois é isso que acontece ultimamente. Um fenômeno que chamo de superficialidade da amizade, ou virtualidade da amizade.


Tudo começa quando você faz uma nova amizade, seja com colegas de trabalho, ou de escola\faculdade ou seja lá o que for. Essa amizade passa a ser mais virtual do que presencial quando vocês não mais convivem um com o outro. Daí, o Facebook dá aquela ajudinha para vocês saberem tudo sobre suas vidas. Viagens, acontecimentos como um noivado, batizado, mudança de casa… tudo!


Aí, inconscientemente você supõe não ser necessário ligar e perguntar como vai a vida do seu amigo. Não o chama para sair. Não o convida para seu aniversário. Afinal, ta tudo bem na vida dele. Você viu, pelas fotos.


Acontece que a gente esquece que ninguém publica suas tristezas e decepções nas redes sociais (não, não vale textão sobre relacionamentos mal acabados). Vendo uma postagem, você não sabe se aquela pessoa precisa de um ombro amigo. Você não vive a realidade oculta. Vê apenas o que vale a pena ser compartilhado.


Esses dias, chamei uma amiga do Facebook para me acompanhar numa visita a uma rádio, na qual eu poderia levar um acompanhante e sabia, graças à rede social, que ela gostava dessa rádio. Por ter uma amizade basicamente virtual, ela admirou-se em receber o convite. Sim, essa é uma reação natural. Estamos tão acostumados com o famoso “Vamu se encontrar qualquer dia” e esse dia nunca chegar, que quando o convite é real, ficamos admirados mesmo. Essa amiga acabou não indo por conta de um probleminha e eu conheci mais um pouquinho sobre a vida dela naquele dia.

As relações virtuais não são desnecessárias, são muito úteis inclusive! Mas jamais devemos nos esquecer das relações pessoais, da conversa no bar, na praça, na rua. Da conversa cara a cara. Não dá pra abraçar pelo computador. Não dá pra sentir reações e expressões pelo Whatsapp.


Se você chegou até aqui no texto, deve estar lembrando dos vários “amigos” que tem e mal se relaciona com eles. Aproveite e vá lá, chame para sair, dê um presente real e não virtual no dia de seu aniversário. Pergunte como vai a vida dele, provavelmente ele vai te contar algo que não apareceu em sua timeline.

#PorMaisAmizadesPresenciais

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O dia que conheci Maria José

Tarde de sábado, sob o sol escaldante de meio dia, estava Maria José, com seus 40 e poucos anos, esperando o ônibus após largar o serviço.

Aliás, o serviço fichado, com patrão e horário para trabalhar era seu principal alvo de reclamação.

“Estou louca pra abrir meu negócio próprio e voltar a ser dona dos meus horários. Já tive cinco funcionários, agora fico a mercê de patrão”.

Com a demora do ônibus, Maria expôs mais uma situação que lhe incomodava: o bairro em que mora.

“Estou louca pra sair desse Taquaril e ir pro meu lote perto de Ribeirão das Neves, ali pertinho, ô lugarzinho bão!”

Entre o desespero de lembrar que havia perdido 400 reais e o consequente atraso da prestação do lote, Maria sonha. Sonha em morar no bairro que tem supermercado, açougue e ponto de ônibus próximo. Sonha em abrir uma vendinha, crescer e ser sua própria patroa.

“Já olhei o que tem lá, vi que não tem sorveteria nem loja de suco, então vou construir algo assim”.

Nos planos de Maria José está levar seu genro, que é cozinheiro. Assim que acabar de pagar o lote, que ela faz questão de lembrar que comprou na imobiliária e não ganhou nada da prefeitura, ela pretende construir, aos poucos sua casinha e seu comércio.

“Vou lá na prefeitura legalizar meu negócio e pagar INSS como microempreendedora”

Apesar de lembrar que ficará longe dos filhos e dos netinhos, Maria fica feliz em saber que ficará longe de suas noras, que segundo ela, "não prestam". Apenas uma, da igreja. Essa amasiou com seu filho, que trabalha na praça de alimentação do Shopping, mora com ele numa cidade na região metropolitana de BH e ajuda a criar seu enteado de 3 anos que foi abandonado pela mãe (outra nora que Maria deu graças por nunca mais ver).

“Moça boa sabe? Ela ta até olhando creche pra ele”.

Maria José conta muitas histórias sobre suas noras "periguetes” e sobre a filha que ainda não sabe se vai fazer festa de aniversário de seu filho mais velho, pois está com bebê pequeno, uma menina de três meses, e com muitas despesas para pagar.

Maria tem o sofrimento e o cansaço estampado na cara, como quem começou a trabalhar cedo. E começou mesmo! Aos poucos ela lembra e conta sobre quando trabalhava, ainda jovem, em casa de família e, com orgulho, lembra que era a família do compositor Vinícius de Morais. Lembra que sua filha se chama Natália em homenagem à filha do músico. E lembra também que ninguém acredita nessa história.

Ah! Maria José. Natural de Minas Novas, no Alto Jequitinhonha. Por lá estão seus familiares, tios e tias morando em sítios grandes e aconchegantes, onde gosta de nadar nos rios e garimpar. Viaja para lá a cada quatro anos e esse ano faria exatamente quatro, mas não poderá viajar antes de terminar a obra na sua nova casinha.

“Ah! Eu gosto de viajar com dinheiro pra comprar queijo, compota de doce. Tem muitas coisas gostosas lá. Ai não dá pra ir sempre né? Por isso, quando eu vou, meus tios até brigam pra saber em casa de quem eu vou ficar”.


Com os dramas de sua vida, Maria José segue em frente, com toda sua humildade, projetando na nova casinha a esperança de uma vida nova. Uma vida em que não precisará subir morro e poderá seguir a recomendação da médica sobre sua hérnia de disco. Uma vida onde não haverá a violência da favela nem o stress do patrão.

Uma vida melhor.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

10 coisas sobre ser um graduado desempregado

É pessoal, 2015 foi um ano em que várias empresas resolveram cortar gastos diante do alarde de uma crise que se instalou no Brasil. O fato é que, com esses cortes no orçamento, milhares de trabalhadores ficaram desempregados. As filas de pessoas em busca de vagas contornam as ruas e passar por uma seleção fica cada vez mais complicado.


Estar desempregado significa ver as contas baterem na porta, ver seu nome indo para o SPC/Serasa e ainda ouvir críticas das mais variadas, aliás, é só querer que você arruma emprego, certo? Essa pressão aumenta mais se você tiver uma graduação, afinal, quem se formou tem obrigação de estar empregado pois estudou para isso, não é mesmo?


Mas sua vida é mais ou menos assim:


1. Logo no primeiro dia, bate aquele desespero: Ferrou, estou desempregado, e agora? Durante a primeira semana é hora de relaxar, fazer o acerto ou ver se tem seguro desemprego para receber.




2. Da segunda até a terceira ou quarta semana, fica tranquilo, gastando o dinheiro que resta. Faz de conta que está de férias, dorme tarde, acorda tarde, come besteiras, fica ativo nas redes sociais, põe as séries em dia e, aos poucos,  atualiza o currículo e envia para o e-mail do RH das empresas de sua área de atuação. Afinal ninguém espera ficar desempregado por muito tempo, então fica de boa.




3. No segundo mês, percebe que, após não receber telefonema algum sobre os e-mails, resolve ir pessoalmente, com o currículo em mãos. Veste sua melhor roupa, arruma cabelo (maquiagem) e se prepara para possíveis conversas com os diretores. Chegando às empresas, a resposta quase sempre se repete: “Não temos vagas no momento, mas pode deixar seu currículo conosco. Queria pedir para enviar por e-mail também pra gente colocar no nosso banco de dados”. Sim, o currículo impresso quase nunca é necessário. Mas você sente que foi bom ir pessoalmente ao local e dar sorte de conseguir conversar com alguém da direção ou do RH, pois, na maioria das vezes, você entregou seu currículo para a recepcionista que disse: “vou enviar para o setor responsável, ai a gente entra em contato, tá?”




4. Depois de chegar em casa com bolhas no pé, de tanto andar de empresa em empresa, é hora de enviar por e-mail o mesmo currículo que acabou de entregar impresso.




5. No terceiro mês, seu celular passa a ser um complemento do corpo. Qualquer ligação pode ser para uma entrevista, então não pode largá-lo, nem mesmo para ir ao banheiro ou tomar banho. Você tem o aplicativo de e-mail no smartphone e qualquer alerta sonoro de novo e-mail é motivo para correr e pegar o celular e, na maioria das vezes, é simplesmente uma atualização de Twitter, Facebook, ou mala-direta de alguma empresa. Muitas vezes, você recebe e-mail dos sites de emprego (sim, a essa altura, você já fez cadastro em todos possíveis) lembrando que você pode ativar a Conta Plus por apenas 19,90 mensais. Nesse momento você se pergunta: como pagar tantas contas plus nesses sites se estou desempregado, vou tirar dinheiro de onde?




6. Você repete quase a mesma pergunta quando assiste a um especialista na área dizer: “é muito importante combater o desemprego fazendo cursos de especialização na área para fortalecer o currículo” (Bom, se ele me emprestar a grana para pagar uma pós, eu faço).




7. Ao mesmo tempo, você precisa dar explicações para as tias curiosas, os amigos empregados e até para o vizinho sobre o porquê de possuir uma graduação e não estar trabalhando. “Já foi no Sine?” (Já!). “Tem um site chamado vagas.com, ja viu?” (Me inscrevi mês passado). “Você tem certeza que tentou todas as empresas possíveis?” (Tá duvidando do meu esforço?). “Se você ficar só em casa, o emprego vai bater na porta não, ta?” (Quem disse isso?).




8. Já há quase quatro meses desempregado, passando por entrevistas ou não, você resolve procurar emprego fora da área para fazer o tal curso de especialização que o especialista disse na TV. Já com uma experiência em distribuir currículo, faz uma adaptação nele (a milésima, afinal para cada cargo, você coloca um objetivo diferente) e sai distribuindo, tipo carteiro, em empresas variadas. Mas não, você passou a vida fazendo estágios na própria área e não tem experiência suficiente para ser auxiliar de escritório, vendedor, recepcionista, promotor, ascensorista… e a todo momento repete para si mesmo: “Não, eu tenho uma graduação, não posso ser atendente de lanchonete nem balconista” (cargos que sempre têm vagas).



9. Ai, alguém te dá a brilhante ideia de prestar concurso. Você vai lá, todo feliz e animado com o possível salário e bonificações, faz a inscrição (que sempre beira os 100 reais e você pega emprestado com alguém) e resolve estudar em casa. Ai, após pegar o gabarito, percebe que errou mais questões do que deveria e lembra que era melhor ter pago um cursinho (com que dinheiro mesmo?).



10. No fim, você espera por um milagre enquanto faz freelas ou trabalhos manuais quando se tem alguma criatividade. E ninguém, absolutamente ninguém, te diz realmente o que fazer para conseguir emprego na sua área, afinal, se alguns de seus amigos estão trabalhando porque conseguiram uma indicação, os outros estão procurando emprego também.


sábado, 3 de outubro de 2015

Falta amor! E o Estatuto da Família é reflexo disso

Um dos assuntos mais comentados tanto nos jornais, redes sociais ou em rodas de amigos, é o Estatuto da Família, aprovado no dia 24 de setembro pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal. De acordo com o texto, que seguiu para o Senado, família será considerado apenas o grupo formado por homem, mulher e filhos. A proposta exclui famílias poliafetivas, como aquelas em que avós criam os netos, crianças são criadas por tias, irmãos mais velhos que criam os mais novos, além de excluir famílias homoafetivas, fato que chama mais atenção.

Imagem da Internet
Em tempos em que a diversidade sexual anda sendo discutida e que vários países estão oficializando casamentos gays, o Brasil segue andando na contramão. O cerne da discussão em torno da aprovação do Estatuto se tornou a exclusão da formação de família com núcleo homoafetivo. Se aprovado, casais homossexuais não poderão ter filhos, seja por adoção, reprodução in vitro, barriga solidária ou qualquer outra forma de gestação. Isso porque o Estatuto define questões como heranças, processos de adoção, guarda da criança, inclusão de parceiro em plano de saúde, etc.


Uma das justificativas do texto, segundo o deputado Diego Garcia, em seu relatório, é que relações de puro afeto não são critérios constitutivos de família (oi?). Assim como mencionado anteriormente, uma parcela considerável da população será privada de certos direitos, como pode acontecer na família de Bruno Inácio. O jornalista, de 22 anos, conta que seus avós são “emprestados”, pois seu avô biológico, quando ficou viúvo, casou-se novamente, mas quando ele também faleceu, a madrasta de sua mãe encontrou um novo marido. “Meus avós não são biológicos. Pelo Estatuto, eles não são minha família. Isso pode ser um problema, uma vez que a casa da minha ‘avó’ pode não ser de direito da minha mãe”, explica.


Para Bruno, que também é homossexual, quando o Estado define o que é família, ele está, na verdade, definindo o que não é. Ele acredita que o Supremo Tribunal Federal irá considerar o Estatuto inconstitucional, pois o Congresso não pode legislar sobre liberdades individuais. “Quando o Estado legisla sobre este tipo de coisa, é como se nossas relações não valessem nada”, conclui.


UMA  MINI-PESQUISA



Para aprofundar no tema e entender um pouco mais sobre as opiniões quanto ao Estatuto, busquei ajuda no meu círculo de amigos e nas redes sociais enviando a eles um questionário. As perguntas surgiram com base em comentários que li e ouvi nos últimos dias. O resultado foram respostas bem concisas e muito significativas.


Responderam às perguntas 23 pessoas, sendo 5 homossexuais e 18 héteros. Elaborei 2 questionários, onde quem se identificasse como hetero responderia a um grupo de perguntas, e quem se considerasse homo, responderia a outro grupo. A pergunta crucial “O que você pensa sobre o Estatuto da Família” foi feita para ambos.


Os gays discordaram, em unanimidade, com a padronização de família e demonstraram opinião formada. Uma minoria hétero (17%) concordou que família é constituída por pai, mãe e filho, mas nenhum deles soube dizer o que pensa sobre o Estatuto e deixaram a questão em branco. A maioria hétero, 83%, é contrária ao Estatuto e explicou o porquê. Faltou argumentos para defendê-lo, algo que sobrou na hora de criticá-lo.


RESPEITO E OUTRAS DENOMINAÇÕES



Entre os gays, em sua maioria jovens entre 18 e 25 anos, todos declararam ter ótimo relacionamento com a família e quando a pergunta foi “quais valores você pretende ensinar ao seu filho?”, a resposta também foi unânime: respeito. Aliás, respeito é o que falta entre todos aqueles que têm medo do diferente e do novo. “Narciso acha feio o que não é espelho”, já dizia a música.


Outras palavras predominantes entre ambos os questionários foram amor, carinho, educação e solidariedade. Alguns mencionaram que uma família, onde se ensina sobre a diversidade, seja de famílias, crenças, sexual etc., terá descendentes que vão aprender a respeitar e vão crescer bem mais tolerantes.

Já o Estatuto foi definido, pela maioria das pessoas, como: descriminatório, absurdo, intolerante, machista, ultrapassado e hipócrita. Um dos entrevistados afirmou acreditar que ele tem um viés religioso, outro mencionou o fato do ser humano se preocupar muito com a vida alheia. Outros dados da pesquisa você pode conferir logo abaixo, no final do post.


Cheguei à conclusão de que Estatuto da Família, que é apoiado pelas bancadas religiosas, é algo excludente e significa mais uma forma de separar o ser humanos, assim como já existe a separação em clãs, gêneros, classes, raças… indo na contramão daquilo que os profetas das religiões mais predominantes no mundo ensinaram: espalhar o amor.


DADOS DA PESQUISA:


Número de Entrevistados:
17 Héteros
5 Homossexuais


Faixa etária predominante em ambos: Entre 18 e 25 anos


Escolaridade predominante em ambos:
Ensino Superior Incompleto (55%)
Ensino Superior Completo (17%)
Ensino médio Completo (6%)
Outras escolaridades (22%)


17% de héteros acredita que família é formada por pai, mãe e filho
83% de héteros não concorda com a padronização
60% dos homossexuais que responderam ao questionário não pretende formar família com filhos
75% dos que não concordam com a formação de família por casais do mesmo sexo, justificaram imaginar que uma criança não entenderá o que é ter dois pais ou duas mães
Pelo menos metade justifica que Deus criou homem e mulher.

100% de gays acreditam que a homossexualidade nasce com a pessoa, sendo que todos disseram ter se reconhecido assim desde a infância.
84% dos héteros acreditam que a homossexualidade nasce com a pessoa.
16% dos héteros acreditam que a pessoa se torna gay por algum motivo, desses, pelo menos metade disse que uma desilusão amorosa ou carência pode ser um dos fatores.


Nenhum hétero que não concorda com a formação de família homoafetiva dissertou sobre o Estatuto.


100% dos gays não acha que se tiver um filho, ele se tornaria gay por influência dos pais e não desejam, necessariamente, que ele seja.

Ps.: os questionários buscavam apenas opiniões que dessem embasamento para a postagem.



quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Resenha/Crítica Filme O Pequeno Príncipe

Ficha técnica
Título: O Pequeno Príncipe
Ano: 2015 / Duração: 1h40min
Diretor: Mark Osborne
Gênero: Animação

"O problema não é crescer, é esquecer". A frase vem do fascinante livro de Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe. Talvez, na contramão de todos aqueles livros de contos de fadas e super-heróis, O Pequeno Príncipe é uma das mais democráticas obras da literatura infantil, que interessa tanto a meninos quanto a meninas, sem distinções. É também o livro que todas as crianças, acredito eu, deveriam ler. Ele fala sobre a imaginação e coisas da vida, que levamos conosco até tornar-mos adultos. Aliás, a frase no início do parágrafo se refere à imaginação, crescer e esquecer significa que deixamos de imaginar e que não conseguimos mais enxergar que o chapéu, na verdade, era uma cobra que havia acabado de engolir um animal inteiro.

Eu havia acabado de reler esse clássico quando soube da produção de um filme. O trailler era fascinante assim como a história. Tratei logo de aguardar seu lançamento no Brasil.

Hoje, cheia de expectativas, fui assisti-lo. Assentei-me na sala 3D e mergulhei na história, que aos poucos ia sendo narrada com lealdade ao livro. Paralelamente a história da menina, filha de uma mulher que, assim como todos os adultos, pensava apenas em seu trabalho e no futuro nerd da filha.
Olha eu aí antes da sessão!

É comovente a história da menina, que vive apenas com a mãe e tem um pai que desapareceu no mundo e lhe manda, todo ano, em seu aniversário, uma daquelas miniaturas de cidade que ficam em redomas de vidro e nevam quando balançadas. Ela não tinha amigos, até conhecer o velho aviador que um dia havia conhecido um Pequeno Príncipe, cuja história resolveu registrar no papel com textos e gravuras. 

O Pequeno Príncipe é um livro relativamente pequeno, e logo a história já tinha sido completamente contada à menina. Para completar uma hora e quarenta minutos, era necessário preencher o tempo com algo, ai entrou a criatividade do diretor. E foi ai que a história deixou de ser atrativa para os tantos que leram o livro e passou a interessar mais às crianças. Apesar da mãe da menina preencher o espaço reservado aos vilões, afinal todo filme tem um, era preciso um mais maldoso. Ele aparece quando a menina resolve ir em busca do Pequeno Príncipe após o velho adoecer. No caso, este vilão é o contador de estrelas, que roubou todas para iluminar uma cidade/planeta, e é nesse lugar que ela encontra o príncipe.

Nesse momento, imaginei se tratar de um sonho, imaginei que viria à tona toda a história da imaginação. Mas não parecia sonho. Eu preferia que fosse. A magia do livro é ficar imaginando o que acontece depois que o livro acaba. É ficar pensando se o Pequeno Príncipe conseguiu voltar ao seu asteroide ou se a rosa ainda o aguardava viva. Essa magia da imaginação é quebrada quando o diretor do filme resolve contar o que vem depois do fim.

Contar o que acontece depois do fim do livro é como quebrar a imaginação. Imagine só se resolvem contar que Capitu traiu mesmo Bentinho, o Dom Casmurro. Machado de Assis foi genial em deixar a dúvida e é ela que nos faz lembrar com satisfação sobre seu livro. O mesmo acontece com o Pequeno Príncipe.

O filme é lindo/bom/comovente até chegar nos últimos 30 minutos de reprodução. Depois ele cai no mesmo enredo como todos os outros filmes infantis que necessitam de aventura, clímax (em que a personagem principal passa por um momento de tensão) e vilão (que sempre perde no final).


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Cobertura legítima x sensacionalismo: uma análise do Profissão Repórter de 18/08/2015

Uma das coisas mais fascinantes no Jornalismo é o contar de histórias. Em cada uma, somos convidados a mergulhar num mar de sentimentos, muitas vezes de dor, alegria, nostalgia, entre outros tantos. Ontem, o Profissão Repórter contou as histórias de algumas das vítimas da recente chacina no estado de São Paulo, que resultou em 19 mortes. A cobertura jornalística mostrou como cada morte aconteceu e como cada familiar e amigos se sentiam diante da situação.


Programa é exibido na Rede Globo às
terças-feiras após Tapas & Beijos
Sensacionalismo? Não.

A cobertura do Profissão Repórter não precisou se apoiar nas lágrimas dos entrevistados, não dramatizou o que já é dramático, não polemizou o que já é polêmico. O programa simplesmente agiu dentro do propósito do Jornalismo para esses casos, que é noticiar, denunciar, contar.


Não há como o repórter não se envolver com a situação. Mas todos souberam estar ali sem serem frios ou se envolverem além do necessário. Um dos repórteres teve a sensibilidade de dar os pêsames à mãe de uma das vítimas. Sensacionalista seria se este mesmo repórter abraçasse a mulher, sabendo que em momentos de tristeza, desabamos diante de um abraço. Mais sensacionalista ainda seria se no fundo fosse colocado algum tipo de trilha comovente. Tudo o que o repórter fez foi mostrar sentimento, além de abordar pura e simplesmente a situação em que os familiares se encontravam.


O acompanhamento do velório e o microfone aberto capturando os sons de choro são necessários nesse tipo de caso, eles mostram o quão sofrido é perder um amigo/parente nessa situação e o quão revoltante é saber que os responsáveis por isso ainda estão impunes. Todos conseguimos chegar a essa conclusão sem que as imagens fossem incessantemente repetidas. Sem que no fundo algum apresentador dissesse "isso é um absurdo! É uma tristeza". Ora! Todos estamos vendo que é.


Imagino que muitos devem ter se comovido ao ver a avó falar com uma de suas netas, que perdeu o pai na chacina, que cuidaria dela e de suas irmãs. A história das meninas não sofreu uma superexposição, apenas foi relatada. Em um programa sensacionalista, haveria uma simulação com atores. Colocariam criancinhas para fazer o papel das meninas abraçando e dizendo "papai, eu te amo!". Só que isso não foi necessário para que o telespectador sentisse que as meninas estavam sofrendo ao perceberem que nunca mais vão ver o pai.


Por fim, a parte mais pesada do programa que gostaria de pontuar são as imagens da lavagem do bar. Caco Barcelos acompanhou toda a movimentação do dono do bar que lavava o sangue derramado pelas vítimas que, inclusive, uma delas era seu irmão. A cenas são fortes, mas Caco também teve a sensibilidade de não entrevistar o dono do bar naquele momento, mas um dos vizinhos e frequentadores do local. Imagino também que, nesse momento, todos nós imaginamos o irmão vendo o outro morrer ali, imaginamos o quão difícil foi para o dono do bar lavar o sangue das vítimas. Não foi necessário que Caco conversasse com ele ali. Não foi necessário que houvesse mais uma vez uma simulação com atores. Mas a imagem do sangue escancara o tamanho da crueldade e barbaridade que aconteceu ali, e isso sim foi necessário.


Nesse tipo de apuração, é complicado caminhar sobre a linha tênue entre a parcialidade e a imparcialidade, mas o Profissão Repórter relatou com maestria singularidades da chacina, denunciou, apurou, conversou e mostrou como é que se faz jornalismo de verdade!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O que você precisa saber sobre aposentadoria e regra 85/95

Muito tem-se falado e ouvido sobre as novas regras da aposentadoria por tempo de contribuição. Entretanto, são tantos cálculos, que acabaram gerando confusões. Para entender melhor, tento resumir aqui alguns pontos.

A proposta do Congresso é de que o tempo de contribuição (30 anos para mulher e 35 para homens) seja somado à idade que se pretende aposentar somando no mínimo 85 para mulheres e 95 para homens. Ou seja: com esse cálculo mulher pode se aposentar com 55 anos e homem com 60 (desde que tenham contribuído corretamente).


Entende-se que essa seja uma alternativa ao fator previdenciário: aquele que reduz a aposentadoria em quase 40% quando a pessoa quer aposentar antes da idade. Ou seja, é uma ideia muito interessante porque, com a regra 85/95, a pessoa vai receber o valor integral, 100%. Além disso, o cidadão pode escolher entre o próprio fator previdenciário e a regra 85/95.


Porém, a presidenta vetou e acrescentou alguns pontos e o governo quer que essa soma chegue a 90 e 100. Ou seja, a mulher poderia aposentar por tempo de contribuição aos 60 e homem aos 65. Ops! Mas por idade já é assim. Se eu chegar aos 60 com um mínimo de contribuição, eu aposento, sem precisar de ter contribuído por 30 anos. De acordo com a atual regra, válida desde 2011, para aposentar por idade (60 anos para mulher e 65 para homens) eu preciso contribuir apenas por 15 anos (fonte: INSS).


Mas essa regra 90/100 não é para agora, iria sendo inserida gradativamente, aumentando a soma aos poucos até o ano de 2022. Veja nessa reportagem: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/06/entenda-como-funciona-o-sistema-de-pontos-para-aposentadoria.html


De qualquer forma, se bobear, é possível que a regra de aposentadoria por idade também mude, afinal, um dos argumentos para essa mudanças é de que a expectativa de vida do Brasileiro vem aumentando. Enquanto isso, vamos acompanhando. As reportagens abaixo ilustram um pouco sobre a Medida Provisória, que ainda segue em discussão no Congresso Nacional.

Diário Oficial publica novas regras para cálculo de aposentadorias:


'No fim das contas' explica as novas regras de aposentadoria:
http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2015/06/no-fim-das-contas-explica-novas-regras-de-aposentadoria.html

quarta-feira, 27 de maio de 2015

CTI: Ver a morte para valorizar a vida!


"Ele assentou-se na cama, por vinte minutos!" - exclamou. A notícia logo é passada por telefone à tia, que se alegra. A tia liga para a filha, que liga para a prima, e logo logo a família inteira já sabe da novidade.

Parece uma bobagem, mas para quem ficou internado, entubado, deitado, calado e dopado por 45 dias, sentar-se na cama é mesmo uma grande vitória.

O ser humano apenas valoriza as coisas pequenas quando elas se tornam grandes. Quando se depara com a morte, ou quase morte, o ser humano valoriza a vida.

O rapaz que assentou-se na cama foi internado com uma infecção generalizada, causada por um problema no pulmão, causado por uma inalação de líquido de um aparelho respiratório que ele precisava usar após ter sofrido as complicações de uma trombose, causada pelo consumo de remédios para emagrecer.

Sim, o ser humano valoriza estética a ponto de buscar todas as alternativas, mesmo que uma delas o prejudique pelo resto da vida. Mas, o ser humano também sofre pela obesidade, sofre por depressão, sofre por não entrar nos padrões estéticos ditados pelo próprio ser humano. De tanto sofrer, julga-se necessário buscar os meios mais rápidos para tentar alguma alegria.

Estar no CTI não é uma alegria, a não ser quando se sai de lá. Ai sim! Desde que se saia vivo, é uma alegria largar o Centro de Tratamento Intensivo. Afinal, é lá que desencarnam pessoas dia após dia. É ali que se acumula todo o sofrimento de parentes e amigos. A choradeira reina.

No CTI, o ser humano se sente um animal e percebe o quanto é fraco. Preso à cama, é ali mesmo que faz suas necessidades e toma banho. É ali, no leito, que dorme, acorda, recebe medicação e passa o dia inteiro ouvindo seus batimentos cardíacos monitorados por um aparelho que faz "Piiii, piiiii, piiii" e quando dorme, o barulho entra em seu sonho, te acompanha. Medo mesmo é não ouvir mais o barulho.

Sair do CTI é mostrar para todos que "olha eu aqui, eu não morri". Sair do CTI significa reaprender a comer, conversar, andar e até mesmo assentar-se na cama!

O CTI é uma experiência de quase morte. Uma vez fora dele, a experiência é de recomeçar a vida e valorizá-la.

O rapaz saiu, já está na enfermaria e, cada ação que fizer como uma pessoa extremamente normal e sadia, será uma vitória tanto para ele, quanto para a família que o aguarda do lado de fora do hospital.

sábado, 25 de abril de 2015

Resenha: O Desatino da Rapaziada

Hoje, compartilho com vocês a resenha que fiz sobre o livro que me trouxe a alegria de viver o jornalismo. 



Título: O Desatino da Rapaziada
Autor: Humberto Werneck
Ano: 1992 (1ª edição), 2012 (2ª edição)
Editora: Companhia das Letras




Desajuizados mesmo, com muito orgulho

Escritores e jornalistas reunidos em bares, confidências, extravagâncias, idas e vindas de pessoas da mais alta importância na literatura, a história de uma grande cidade. É o que se encontra em "O Desatino da Rapaziada", livro de Humberto Werneck, uma crônica que reúne histórias dos maiores jornalistas e escritores de Minas Gerais.

Começando por Carlos Drummond de  Andrade, rapaz magro de óculos, adolescente, no auge de seus dezoito anos, infiltrado no jornal Diário de Minas, no ano de 1921, na Rua da Bahia, em Belo Horizonte, o Desatino conta, com pequenos detalhes, a história  de sucessivas criações de vários outros diários e semanais produzidos por grandes gênios, pessoas em que a criatividade aflorava e dali saía as obras primas da literatura e do jornalismo.

Como se fosse regra, estes semanais e diários não tinham muito tempo de vida, porém, sua originalidade bastava para, com poucos meses, se tronarem inesquecíveis aos olhos do autor do Desatino. Também como se fosse regra, seus criadores, em sua maioria, partiam de Minas para São Paulo e Rio de Janeiro, abandonando o estado para se aventurarem em outras maluquices. Maluquices pois, como o título do livro já diz, desatinos, falta de juízo, escritores loucos que viravam a noite conversando, bebendo e fazendo estripulias, assim como Drummond, que escalava o viaduto Santa Tereza em tempo de cair, e no dia seguinte estavam a escrever suas ideias em seus diários e semanais como se nada tivesse acontecido.

Werneck mostra sua nostalgia ao falar desses jornais, contando sobre o ambiente da redação, as conversas de bar que viravam crônicas, edifícios que inspiravam histórias, a paixão dos escritores em montar algo que fosse interessante aos leitores, ou talvez nem se importavam, o importante era o prazer de escrever. Prazer em criticar, noticiar, criar, contar histórias, o prazer de montar os jornais, mostrar sua criatividade e sua capacidade de prender a atenção.

O Desatino chama a atenção para uma época de grandes criações, época em que escrever era uma arte e essa arte começava ainda na juventude, os grandes escritores nasciam com o dom, começavam a escrever já com catorze ou quinze anos e não paravam mais.

Trata-se de um livro que provoca em quem nasceu nos dias de hoje, um sentimento de saudades de um tempo em que nunca viveu.



Leia um trecho de O Desatino da Rapaziada em:  http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13432.pdf