Tarde de sábado, sob o sol escaldante de meio dia, estava Maria José, com seus 40 e poucos anos, esperando o ônibus após largar o serviço.
Aliás, o serviço fichado, com patrão e horário para trabalhar era seu principal alvo de reclamação.
“Estou louca pra abrir meu negócio próprio e voltar a ser dona dos meus horários. Já tive cinco funcionários, agora fico a mercê de patrão”.
Com a demora do ônibus, Maria expôs mais uma situação que lhe incomodava: o bairro em que mora.
“Estou louca pra sair desse Taquaril e ir pro meu lote perto de Ribeirão das Neves, ali pertinho, ô lugarzinho bão!”
Entre o desespero de lembrar que havia perdido 400 reais e o consequente atraso da prestação do lote, Maria sonha. Sonha em morar no bairro que tem supermercado, açougue e ponto de ônibus próximo. Sonha em abrir uma vendinha, crescer e ser sua própria patroa.
“Já olhei o que tem lá, vi que não tem sorveteria nem loja de suco, então vou construir algo assim”.
Nos planos de Maria José está levar seu genro, que é cozinheiro. Assim que acabar de pagar o lote, que ela faz questão de lembrar que comprou na imobiliária e não ganhou nada da prefeitura, ela pretende construir, aos poucos sua casinha e seu comércio.
“Vou lá na prefeitura legalizar meu negócio e pagar INSS como microempreendedora”
Apesar de lembrar que ficará longe dos filhos e dos netinhos, Maria fica feliz em saber que ficará longe de suas noras, que segundo ela, "não prestam". Apenas uma, da igreja. Essa amasiou com seu filho, que trabalha na praça de alimentação do Shopping, mora com ele numa cidade na região metropolitana de BH e ajuda a criar seu enteado de 3 anos que foi abandonado pela mãe (outra nora que Maria deu graças por nunca mais ver).
“Moça boa sabe? Ela ta até olhando creche pra ele”.
Maria José conta muitas histórias sobre suas noras "periguetes” e sobre a filha que ainda não sabe se vai fazer festa de aniversário de seu filho mais velho, pois está com bebê pequeno, uma menina de três meses, e com muitas despesas para pagar.
Maria tem o sofrimento e o cansaço estampado na cara, como quem começou a trabalhar cedo. E começou mesmo! Aos poucos ela lembra e conta sobre quando trabalhava, ainda jovem, em casa de família e, com orgulho, lembra que era a família do compositor Vinícius de Morais. Lembra que sua filha se chama Natália em homenagem à filha do músico. E lembra também que ninguém acredita nessa história.
Ah! Maria José. Natural de Minas Novas, no Alto Jequitinhonha. Por lá estão seus familiares, tios e tias morando em sítios grandes e aconchegantes, onde gosta de nadar nos rios e garimpar. Viaja para lá a cada quatro anos e esse ano faria exatamente quatro, mas não poderá viajar antes de terminar a obra na sua nova casinha.
“Ah! Eu gosto de viajar com dinheiro pra comprar queijo, compota de doce. Tem muitas coisas gostosas lá. Ai não dá pra ir sempre né? Por isso, quando eu vou, meus tios até brigam pra saber em casa de quem eu vou ficar”.
Com os dramas de sua vida, Maria José segue em frente, com toda sua humildade, projetando na nova casinha a esperança de uma vida nova. Uma vida em que não precisará subir morro e poderá seguir a recomendação da médica sobre sua hérnia de disco. Uma vida onde não haverá a violência da favela nem o stress do patrão.
Uma vida melhor.
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