quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Cobertura legítima x sensacionalismo: uma análise do Profissão Repórter de 18/08/2015

Uma das coisas mais fascinantes no Jornalismo é o contar de histórias. Em cada uma, somos convidados a mergulhar num mar de sentimentos, muitas vezes de dor, alegria, nostalgia, entre outros tantos. Ontem, o Profissão Repórter contou as histórias de algumas das vítimas da recente chacina no estado de São Paulo, que resultou em 19 mortes. A cobertura jornalística mostrou como cada morte aconteceu e como cada familiar e amigos se sentiam diante da situação.


Programa é exibido na Rede Globo às
terças-feiras após Tapas & Beijos
Sensacionalismo? Não.

A cobertura do Profissão Repórter não precisou se apoiar nas lágrimas dos entrevistados, não dramatizou o que já é dramático, não polemizou o que já é polêmico. O programa simplesmente agiu dentro do propósito do Jornalismo para esses casos, que é noticiar, denunciar, contar.


Não há como o repórter não se envolver com a situação. Mas todos souberam estar ali sem serem frios ou se envolverem além do necessário. Um dos repórteres teve a sensibilidade de dar os pêsames à mãe de uma das vítimas. Sensacionalista seria se este mesmo repórter abraçasse a mulher, sabendo que em momentos de tristeza, desabamos diante de um abraço. Mais sensacionalista ainda seria se no fundo fosse colocado algum tipo de trilha comovente. Tudo o que o repórter fez foi mostrar sentimento, além de abordar pura e simplesmente a situação em que os familiares se encontravam.


O acompanhamento do velório e o microfone aberto capturando os sons de choro são necessários nesse tipo de caso, eles mostram o quão sofrido é perder um amigo/parente nessa situação e o quão revoltante é saber que os responsáveis por isso ainda estão impunes. Todos conseguimos chegar a essa conclusão sem que as imagens fossem incessantemente repetidas. Sem que no fundo algum apresentador dissesse "isso é um absurdo! É uma tristeza". Ora! Todos estamos vendo que é.


Imagino que muitos devem ter se comovido ao ver a avó falar com uma de suas netas, que perdeu o pai na chacina, que cuidaria dela e de suas irmãs. A história das meninas não sofreu uma superexposição, apenas foi relatada. Em um programa sensacionalista, haveria uma simulação com atores. Colocariam criancinhas para fazer o papel das meninas abraçando e dizendo "papai, eu te amo!". Só que isso não foi necessário para que o telespectador sentisse que as meninas estavam sofrendo ao perceberem que nunca mais vão ver o pai.


Por fim, a parte mais pesada do programa que gostaria de pontuar são as imagens da lavagem do bar. Caco Barcelos acompanhou toda a movimentação do dono do bar que lavava o sangue derramado pelas vítimas que, inclusive, uma delas era seu irmão. A cenas são fortes, mas Caco também teve a sensibilidade de não entrevistar o dono do bar naquele momento, mas um dos vizinhos e frequentadores do local. Imagino também que, nesse momento, todos nós imaginamos o irmão vendo o outro morrer ali, imaginamos o quão difícil foi para o dono do bar lavar o sangue das vítimas. Não foi necessário que Caco conversasse com ele ali. Não foi necessário que houvesse mais uma vez uma simulação com atores. Mas a imagem do sangue escancara o tamanho da crueldade e barbaridade que aconteceu ali, e isso sim foi necessário.


Nesse tipo de apuração, é complicado caminhar sobre a linha tênue entre a parcialidade e a imparcialidade, mas o Profissão Repórter relatou com maestria singularidades da chacina, denunciou, apurou, conversou e mostrou como é que se faz jornalismo de verdade!

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