O ÔNIBUS, A MULHER E OS CAUSOS
Naquele dia, fui tomar o ônibus em um ponto diferente. Avisaram-me que ali era mais movimentado. Então, fui. Um pouco na dúvida, talvez por não ter enxergado a placa pregada no poste de iluminação, resolvi perguntar onde era o ponto.
Uma senhora simpática me mostrou:
_ Ah! Para o Centro né? É ali, em frente aquela casa, naquele poste.
Agradeci, reparei na rua que parecia mesmo movimentada: três senhores conversavam na esquina, uma moça passeava com um cachorro, um carro saía da garagem e uns moleques passavam de chuteira no pés batendo bola no meio da rua. Animei-me.
Aos poucos a rua foi esvaziando e desertou-se.
Para meu alívio, aproximou-se de mim uma mulher, negra, com aparência de cerca de 40 anos de idade. Mas não dá para saber exatamente, a pele negra tem o dom de esconder a idade. Ela estava ofegante, como quem tivesse corrido. Vestia calça jeans, camiseta, tênis e carregava, além da bolsa enorme, uma sacola retornável de supermercado, que parecia bem pesada.
_ Ufa! Tem muito tempo que você tá ai?
_ Não, faz uns quinze minutos - respondi.
_ Hoje esse ônibus demora, segunda, amanhã é feriado, eles devem trabalhar com horário de feriado. Mas hoje é dia útil, não deveria, só que esse povo é muito esperto.
Balancei a cabeça e concordei. Ela continuou:
_ Eles devem tá achando que todo mundo emendou, só que pobre não emenda. Eu trabalhei igual burro hoje. Amanhã eles podem trabalhar com horário de feriado, eu num vou querer pegar ônibus mesmo. Né não moça?
Mais uma vez concordei e resmunguei algumas palavras. Ela continuava a falar:
_ Mas hoje trabalhei demais viu? Pessoal fez uma zona naquela casa. Fim de semana é assim: eles num lavam nem um copo. Não sei o que aquele cara vai fazer com aquela mulher, - e, virando-se para mim com ar de indignação - ela num lava nem a calcinha dela! Uma moça de 21 anos!
Fiquei curiosa e dei mais ouvidos àquela mulher, que, não sei por que motivo, não perguntei o nome.
_ Onde já se viu, moça nova, faz nada, eu faço tudo. Tô trabalhando igual cachorro. Mas ai você vê a diferença, a minha filha de 8 anos adora arrumar as coisas. Lava banheiro, esfrega azulejo, arruma as roupas dela, vaidooosa que só vendo!
Daí, a mulher, desandou a me contar sobre sua vida:
_ Essa minha filha puxou a mãe faxineira. Tem que ver. Agora a outra de 10 é uma preguiça danada. Gosta de fazer nada. Mas eu fico boba de ver a esperteza da outra, hoje em dia criança nasce muito pra frente, ela é muito pra frente. Meu filho de 3 anos, pra você ter uma ideia, diz que tem namorada na escolinha. Chega e fala comigo que tá namorando e tudo.
Ri do caso e entrosei contando que um sobrinho meu, quando tinha cinco anos, namorava debaixo da mesa com uma menina maior que ele. A mulher riu e emendou:
_ Isso! Ele fala comigo que namora debaixo da mesa também. O outro, de 6, tem namorada também, diz que namora uma menina loira, conheço ela, bonitinha que só vendo. Mas esses namoros devem ser de selinho, abraço. É engraçado demais.
A essas alturas, contabilizei mentalmente quantos filhos a mulher havia dito que tinha, além da barriga, a qual julguei ser de uma gravidez. Foi quando surgiu mais uma!
_ Mas eu tenho orgulho dos meus filhos. A de 19 está trabalhando, essa hora já largou serviço também. Trabalha em supermercado. Mas supermercado é uma bênção né? Já falei pra ela procurar outro. Eu disse: Tamara, Tamara, arruma um emprego melhor porque supermercado tá com nada. Mas graças a Deus ela é menina batalhadeira, que fazer faculdade, vai tentar o Fies. Graças a Deus ela estuda muito, é um orgulho.
Resmunguei algo para mostrar que estava ouvindo toda a história. E ela seguiu com o papo.
_ Mas coitada, a menina estuda, trabalha, compra as coisinhas com o suor do rosto e depois vem uns filho duma égua e leva tudo que ela tem. Ela foi assaltada perto do parque. Ô raiva!
Comentei que eu também temia um assalto e dei graças por ela ter chegado no ponto de ônibus também, afinal faria companhia:
_ Vim para cá pois disseram que era mais movimentado. Mas depois ficou vazio. Ainda bem que você chegou.
_ Movimentado nada, aqui é deserto - respondeu.
Nesse momento, a senhora que havia me dado informação sobre onde ficava o ponto passou por nós segurando um saco de pão e me cumprimentou:
_ Tá ai ainda né? Mas daqui a pouco ele passa.
Como uma profecia, o ônibus apontou no fim da rua.
_ Num falei? Olha ele ai! - apontou a senhora.
_ Graças a Deus, olha ele vindo, agora vou pra casa - expressou a mulher das histórias.
Dei sinal, entramos no ônibus, ela assentou-se na frente, despedi-me dela e de todos os seus causos e passei a roleta.
Sua história tiquetaqueava na minha cabeça como o pêndulo de um relógio, era o retrato da classe média baixa, do pobre de vida medíocre, que sonha, levanta cedo, trabalha muito, espera a condução, corre riscos, mas ainda tem fé e agradece ao seu Deus por cada vitória diária.
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