sábado, 25 de abril de 2015

Resenha: O Desatino da Rapaziada

Hoje, compartilho com vocês a resenha que fiz sobre o livro que me trouxe a alegria de viver o jornalismo. 



Título: O Desatino da Rapaziada
Autor: Humberto Werneck
Ano: 1992 (1ª edição), 2012 (2ª edição)
Editora: Companhia das Letras




Desajuizados mesmo, com muito orgulho

Escritores e jornalistas reunidos em bares, confidências, extravagâncias, idas e vindas de pessoas da mais alta importância na literatura, a história de uma grande cidade. É o que se encontra em "O Desatino da Rapaziada", livro de Humberto Werneck, uma crônica que reúne histórias dos maiores jornalistas e escritores de Minas Gerais.

Começando por Carlos Drummond de  Andrade, rapaz magro de óculos, adolescente, no auge de seus dezoito anos, infiltrado no jornal Diário de Minas, no ano de 1921, na Rua da Bahia, em Belo Horizonte, o Desatino conta, com pequenos detalhes, a história  de sucessivas criações de vários outros diários e semanais produzidos por grandes gênios, pessoas em que a criatividade aflorava e dali saía as obras primas da literatura e do jornalismo.

Como se fosse regra, estes semanais e diários não tinham muito tempo de vida, porém, sua originalidade bastava para, com poucos meses, se tronarem inesquecíveis aos olhos do autor do Desatino. Também como se fosse regra, seus criadores, em sua maioria, partiam de Minas para São Paulo e Rio de Janeiro, abandonando o estado para se aventurarem em outras maluquices. Maluquices pois, como o título do livro já diz, desatinos, falta de juízo, escritores loucos que viravam a noite conversando, bebendo e fazendo estripulias, assim como Drummond, que escalava o viaduto Santa Tereza em tempo de cair, e no dia seguinte estavam a escrever suas ideias em seus diários e semanais como se nada tivesse acontecido.

Werneck mostra sua nostalgia ao falar desses jornais, contando sobre o ambiente da redação, as conversas de bar que viravam crônicas, edifícios que inspiravam histórias, a paixão dos escritores em montar algo que fosse interessante aos leitores, ou talvez nem se importavam, o importante era o prazer de escrever. Prazer em criticar, noticiar, criar, contar histórias, o prazer de montar os jornais, mostrar sua criatividade e sua capacidade de prender a atenção.

O Desatino chama a atenção para uma época de grandes criações, época em que escrever era uma arte e essa arte começava ainda na juventude, os grandes escritores nasciam com o dom, começavam a escrever já com catorze ou quinze anos e não paravam mais.

Trata-se de um livro que provoca em quem nasceu nos dias de hoje, um sentimento de saudades de um tempo em que nunca viveu.



Leia um trecho de O Desatino da Rapaziada em:  http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13432.pdf

1000 visualizações! Obrigada meu povo!

Chegamos às 1000 visualizações. Aeee!


Caro internauta, confesso que me surpreendi quando abri as estatísticas do blog esperando que houvesse chegado aos 1000 cliques. Na verdade, descobri que já são 1021.
Para quem possui um blog que, de tempos em tempos, dá uma pausa para respirar e o deixa hibernando, tendo uma média de 33 cliques para cada uma das 31 postagens, chegar às 1000 visualizações é como fazer 1000 gols!
Aos leitores deste blog, meu muito obrigado!
Rumo aos 2000! Em menos tempo, espero!


Raíssa Pedrosa Xavier
Administradora do Blog

terça-feira, 21 de abril de 2015

Contos de amadora: O ônibus, a mulher e os causos

Baseado em fatos reais...

O ÔNIBUS, A MULHER E OS CAUSOS




Naquele dia, fui tomar o ônibus em um ponto diferente. Avisaram-me que ali era mais movimentado. Então, fui. Um pouco na dúvida, talvez por não ter enxergado a placa pregada no poste de iluminação, resolvi perguntar onde era o ponto.


Uma senhora simpática me mostrou:

_ Ah! Para o Centro né? É ali, em frente aquela casa, naquele poste.

Agradeci, reparei na rua que parecia mesmo movimentada: três senhores conversavam na esquina, uma moça passeava com um cachorro, um carro saía da garagem e uns moleques passavam de chuteira no pés batendo bola no meio da rua. Animei-me.

Aos poucos a rua foi esvaziando e desertou-se.

Para meu alívio, aproximou-se de mim uma mulher, negra, com aparência de cerca de 40 anos de idade. Mas não dá para saber exatamente, a pele negra tem o dom de esconder a idade. Ela estava ofegante, como quem tivesse corrido. Vestia calça jeans, camiseta, tênis e carregava, além da bolsa enorme, uma sacola retornável de supermercado, que parecia bem pesada.

_ Ufa! Tem muito tempo que você tá ai?

_ Não, faz uns quinze minutos - respondi.

_ Hoje esse ônibus demora, segunda, amanhã é feriado, eles devem trabalhar com horário de feriado. Mas hoje é dia útil, não deveria, só que esse povo é muito esperto.

Balancei a cabeça e concordei. Ela continuou:

_ Eles devem tá achando que todo mundo emendou, só que pobre não emenda. Eu trabalhei igual burro hoje. Amanhã eles podem trabalhar com horário de feriado, eu num vou querer pegar ônibus mesmo. Né não moça?

Mais uma vez concordei e resmunguei algumas palavras. Ela continuava a falar:

_ Mas hoje trabalhei demais viu? Pessoal fez uma zona naquela casa. Fim de semana é assim: eles num lavam nem um copo. Não sei o que aquele cara vai fazer com aquela mulher, - e, virando-se para mim com ar de indignação - ela num lava nem a calcinha dela! Uma moça de 21 anos!

Fiquei curiosa e dei mais ouvidos àquela mulher, que, não sei por que motivo, não perguntei o nome.

_ Onde já se viu, moça nova, faz nada, eu faço tudo. Tô trabalhando igual cachorro. Mas ai você vê a diferença, a minha filha de 8 anos adora arrumar as coisas. Lava banheiro, esfrega azulejo, arruma as roupas dela, vaidooosa que só vendo!

Daí, a mulher, desandou a me contar sobre sua vida:

_ Essa minha filha puxou a mãe faxineira. Tem que ver. Agora a outra de 10 é uma preguiça danada. Gosta de fazer nada. Mas eu fico boba de ver a esperteza da outra, hoje em dia criança nasce muito pra frente, ela é muito pra frente. Meu filho de 3 anos, pra você ter uma ideia, diz que tem namorada na escolinha. Chega e fala comigo que tá namorando e tudo.

Ri do caso e entrosei contando que um sobrinho meu, quando tinha cinco anos, namorava debaixo da mesa com uma menina maior que ele. A mulher riu e emendou:

_ Isso! Ele fala comigo que namora debaixo da mesa também. O outro, de 6, tem namorada também, diz que namora uma menina loira, conheço ela, bonitinha que só vendo. Mas esses namoros devem ser de selinho, abraço. É engraçado demais.

A essas alturas, contabilizei mentalmente quantos filhos a mulher havia dito que tinha, além da barriga, a qual julguei ser de uma gravidez. Foi quando surgiu mais uma!

_ Mas eu tenho orgulho dos meus filhos. A de 19 está trabalhando, essa hora já largou serviço também. Trabalha em supermercado. Mas supermercado é uma bênção né? Já falei pra ela procurar outro. Eu disse: Tamara, Tamara, arruma um emprego melhor porque supermercado tá com nada. Mas graças a Deus ela é menina batalhadeira, que fazer faculdade, vai tentar o Fies. Graças a Deus ela estuda muito, é um orgulho.

Resmunguei algo para mostrar que estava ouvindo toda a história. E ela seguiu com o papo.

_ Mas coitada, a menina estuda, trabalha, compra as coisinhas com o suor do rosto e depois vem uns filho duma égua e leva tudo que ela tem. Ela foi assaltada perto do parque. Ô raiva!

Comentei que eu também temia um assalto e dei graças por ela ter chegado no ponto de ônibus também, afinal faria companhia:

_ Vim para cá pois disseram que era mais movimentado. Mas depois ficou vazio. Ainda bem que você chegou.

_ Movimentado nada, aqui é deserto - respondeu.

Nesse momento, a senhora que havia me dado informação sobre onde ficava o ponto passou por nós segurando um saco de pão e me cumprimentou:

_ Tá ai ainda né? Mas daqui a pouco ele passa.

Como uma profecia, o ônibus apontou no fim da rua.

_ Num falei? Olha ele ai! -  apontou a senhora.

_ Graças a Deus, olha ele vindo, agora vou pra casa - expressou a mulher das histórias.

Dei sinal, entramos no ônibus, ela assentou-se na frente, despedi-me dela e de todos os seus causos e passei a roleta.

Sua história tiquetaqueava na minha cabeça como o pêndulo de um relógio, era o retrato da classe média baixa, do pobre de vida medíocre, que sonha, levanta cedo, trabalha muito, espera a condução, corre riscos, mas ainda tem fé e agradece ao seu Deus por cada vitória diária.