A LOJA
Seus olhos fitaram-me, como se quisesse dizer algo. Fiquei ali, por longos minutos olhando para ele como se correspondesse aos seus encantamentos. Mas nesse dia, o contato foi apenas o olhar.
No dia seguinte, lá estava ele na porta da loja. Seu olhos fitaram-me novamente, correspondi com um sorriso como quem namora uma roupa na vitrine. Ele parecia sorrir também.
E foi assim por alguns dias.
Uma vez, como de costume, lá estava ele na porta da loja. Mas desta vez havia algo diferente. Ele usava uma gravata azul. Parecia pronto para um evento importante como uma festa ou um convite para um passeio. Foi nesse dia que tomei coragem e entrei na loja. A partir daí combinamos que iríamos sair juntos.
Passamos a nos encontrar sempre. Dedicávamos algumas horas do dia para nos ver todos os dias. Escondido, claro!
E funcionava assim: depois do colégio, eu o encontrava na loja e saíamos para algum lugar. Na cidade não havia muitas opções de diversão, ainda mais, espaços onde meus pais não pudessem nos ver ou não ficassem sabendo pelas línguas dos vizinhos que saltitavam na boca como pipoca na panela.
Íamos ao parque ou à pracinha mais afastada do Centro. Caminhávamos pelas ruas como se só existisse nós dois. Muitas vezes eu deixava de comer no colégio só para dividir meu lanche com ele depois. Tivemos momentos divertidos e ele me fazia feliz. Após o passeio, ele ficava de volta à loja e eu seguia para minha casa. Eu o amava e sabia que era recíproco.
Em casa, tentando explicar a demora para voltar após as aulas, inventei para mamãe que estava ensaiando para o teatro da escola, e ela acreditou. Essa mentira foi a salvação para que nós pudéssemos continuar nossos encontros.
A essa hora, minhas amigas se tornaram cúmplices da minha estripulia. Se mamãe perguntasse, elas já sabiam o que responder: “sim, a peça de teatro vai bem senhora Regina, já estamos bem ensaiadas”.
Tudo ia bem, até que Joaninha aprontou uma comigo, que quase quis enforcá-la. Eu havia dito à mamãe que a peça era uma adaptação de Shakespeare. Claro! Uma mentira, só é uma mentira quando bem contada, e essa foi virando uma bola de neve. Mas Joaninha disse à minha mãe que era uma peça religiosa, era a Paixão de Cristo. Eu queria matar Joaninha.
É obvio que mamãe me questionou e acabei revelando o real motivo de minhas demoras.
Mamãe foi até a loja!
Lá ela ouviu da senhora Maria de Lourdes que “Graça gosta muito dele, até permiti que ambos saíssem para passear às vezes, o pobrezinho é muito solitário, precisava de alguém”. Mamãe teve uma conversa séria comigo depois. “Por que não me contou? Eu não iria me importar!”, disse-me com olhar amigável.
Voltamos à loja. Mamãe levou 300 mil cruzeiros para Maria de Lourdes.
E foi assim que Bolinha veio para minha casa. Hoje ele é o cachorrinho preferido da família.

