terça-feira, 31 de março de 2015

Contos de amadora: A Loja

A LOJA


Seus olhos fitaram-me, como se quisesse dizer algo. Fiquei ali, por longos minutos olhando para ele como se correspondesse aos seus encantamentos. Mas nesse dia, o contato foi apenas o olhar.


No dia seguinte, lá estava ele na porta da loja. Seu olhos fitaram-me novamente, correspondi com um sorriso como quem namora uma roupa na vitrine. Ele parecia sorrir também.


E foi assim por alguns dias.


Uma vez, como de costume, lá estava ele na porta da loja. Mas desta vez havia algo diferente. Ele usava uma gravata azul. Parecia pronto para um evento importante como uma festa ou um convite para um passeio. Foi nesse dia que tomei coragem e entrei na loja. A partir daí combinamos que iríamos sair juntos.


Passamos a nos encontrar sempre. Dedicávamos algumas horas do dia para nos ver todos os dias. Escondido, claro!


E funcionava assim: depois do colégio, eu o encontrava na loja e saíamos para algum lugar. Na cidade não havia muitas opções de diversão, ainda mais, espaços onde meus pais não pudessem nos ver ou não ficassem sabendo pelas línguas dos vizinhos que saltitavam na boca como pipoca na panela.


Íamos ao parque ou à pracinha mais afastada do Centro. Caminhávamos pelas ruas como se só existisse nós dois. Muitas vezes eu deixava de comer no colégio só para dividir meu lanche com ele depois. Tivemos momentos divertidos e ele me fazia feliz. Após o passeio, ele ficava de volta à loja e eu seguia para minha casa. Eu o amava e sabia que era recíproco.


Em casa, tentando explicar a demora para voltar após as aulas, inventei para mamãe que estava ensaiando para o teatro da escola, e ela acreditou. Essa mentira foi a salvação para que nós pudéssemos continuar nossos encontros.


A essa hora, minhas amigas se tornaram cúmplices da minha estripulia. Se mamãe perguntasse, elas já sabiam o que responder: “sim, a peça de teatro vai bem senhora Regina, já estamos bem ensaiadas”.


Tudo ia bem, até que Joaninha aprontou uma comigo, que quase quis enforcá-la. Eu havia dito à mamãe que a peça era uma adaptação de Shakespeare. Claro! Uma mentira, só é uma mentira quando bem contada, e essa foi virando uma bola de neve. Mas Joaninha disse à minha mãe que era uma peça religiosa, era a Paixão de Cristo. Eu queria matar Joaninha.


É obvio que mamãe me questionou e acabei revelando o real motivo de minhas demoras.


Mamãe foi até a loja!


Lá ela ouviu da senhora Maria de Lourdes que “Graça gosta muito dele, até permiti que ambos saíssem para passear às vezes, o pobrezinho é muito solitário, precisava de alguém”. Mamãe teve uma conversa séria comigo depois. “Por que não me contou? Eu não iria me importar!”, disse-me com olhar amigável.


Voltamos à loja. Mamãe levou 300 mil cruzeiros para Maria de Lourdes.


E foi assim que Bolinha veio para minha casa. Hoje ele é o cachorrinho preferido da família.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Um pouco sobre minha paixão por escrever

Quando se gosta de escrever, é desde pequeno. E, desde nova, sempre fui uma apreciadora da Língua Portuguesa. Lia poemas, livros, bulas de remédio, cartazes na rua, rótulo de maionese e, na verdade, como dizia Cecília Meireles, lia tudo que me caía às mãos, como ainda leio. De tanto ler, aprendi a escrever. Hoje, o escrever se tornou minha profissão.

Com um toque de nostalgia, quero compartilhar uma poesia que escrevi quando tinha apenas 9 anos. E pensar que, nessa idade, meu sobrinho ainda confundia se lixo se escrevia com "x" ou "ch".


Ela é datada de 03/12/2001 e descreve a vida, como um ciclo:



Na foto, um xerox do trabalhinho, com um rabiscado colorido ao jeito criança de ser, e um visto da professora "Amei!"

A VIDA

O encontro
A paixão
O amor
No coração

O casamento
A casa
As brigas
Os perdões

O filho
O batizado
A festa
Os presentes

O crescimento
Os anos
Os aniversários
A escola

A mocidade
A separação
A tristeza

A volta
A felicidade
Os netos
Os bisnetos

A morte
A tristeza
O fim

quarta-feira, 11 de março de 2015

A pelada sob um ponto de vista feminino

Esta semana fui acompanhar de perto o que os homens chamam carinhosamente de "pelada". De onde esse termo surgiu eu não sei, mas imagino ser devido ao aspecto da bola, que de tanto ser usada vai soltando as escamas e fica sem o contorno, ou seja, pelada.
No universo masculino, jogar bola com os amigos (ou com pessoas que às vezes nem conhece) é tarefa que não se pode faltar. Jogar bola está para o homem, assim como a missa está para o coroinha, é sagrado.

E não tem tempo ruim. Pode ser em quadra aberta, coberta, grama sintética ou futsal. A pelada que fui assistir, em quadra de futebol society, quase não saiu por falta gente para formar os times (5 em cada). Mas não foi problema, o amigo do amigo entrou. O garoto que trabalha na quadra entrou também. Estavam sem chuteira? Isso é o de menos, jogar descalço, às vezes, não faz mal. Formaram-se os times. Sem camisa contra os de camisa e começa a partida.


Imagem da Internet

"Mas meu joelho tá bichado!"
"Tem problema não, você fica no gol!"

Enquanto isso, o outro time trocava as posições de tempos em tempos, para que todos pudessem passar pela tarefa de goleiro.

Aliás, goleiro é algo raro na pelada, tem que ter vocação. Ninguém quer ser goleiro. E quem é, tem todo tipo de regalia. Há quem não cobre as despesas da quadra (que geralmente é dividida entres os peladeiros) para quem se dispor a ser somente goleiro. Ou até mesmo pagar a gasolina ou a condução.

Na pelada, todos querem mostrar suas habilidades, mesmo que não as tenha. Fora do gol, o peladeiro pode driblar, chapelar, fazer aquele lançamento ou mesmo um belo de um golaço. Falando nisso, eita pessoal que gosta de supervalorizar as jogadas! 

Numa pelada, fora o goleiro, não existe posição definida. Não há lateral, volante, meia ou atacante. Todos correm em várias direções. Não tem esquema tático. Porém, há quem queira assumir uma posição e dizer "sou o artilheiro" ou um simples toque na bola antes de alguém chutar para o gol vira "fiz uma bela assistência".

É normal ouvir "sou bom", "sou foda", "é assim que eu jogo no meu X-Box", "Estilo CR7", "Aqui é Messi meu filho".

Ninguém assume que joga mal mas, no fim, isso é o que menos importa.

No mundo feminino não há nada parecido, nem de longe!

Na pelada o homem joga com amigos, conhecidos, parentes... Basta anunciar no Facebook que tem vaga na pelada que chove gente! Além disso marcar e chamar pessoas é muito fácil: bastou dizer "tem peladinha sexta, bora? Dez reais pra cada, quadra coberta de grama sintética" e pronto! O cara combina com gente que nem conhece!

Afinal, não importa cor, idade ou raça, embora as zoações se transformem em quase um Bullying, todos querem se divertir e partir pra resenha depois. Só não vale brigar.

Paz e amor é o que importa e os esquentadinhos que danem!

E foi assim que entendi porque o futebol é a paixão do brasileiro.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Escrever certo não dói e não faz passar vergonha

Ai quem me dera se todos amassem a Língua Portuguesa como eu a amo!

Infelizmente existe quem não se importe tanto assim. Mas por que não respeitá-la? Por que não?

Está certo, eu entendo que na hora de escrever em chats, Facebook, etc. é normal que se resuma as palavras como os famosos "vc", "aki", "qrto", "bjo" e outros. A necessidade de escrever rápido faz com que esses fenômenos aconteçam, o que não está errado, na minha opinião. 

Resumir palavras faz parte do dia-a-dia da internet. Mas de onde o pessoal tirou o "se"? "Se vai lá? / Oh Zé, se comprou o negocio la?" Oi? "SE" pra mim é um tipo de pronome ou conjunção subordinada.

Exemplo: Ele SE deixou levar pelas emoções / Eu vou SE você for / Ele foi-SE.

Enfim, não vim dar aulas de Português. Apenas observe a ignorância de inventar palavras dessa forma. Se quer resumir a palavra "VOCÊ", para evitar de digitar 4 letras e ainda acentuar, pelo amor de Deus e de todos os nossos antepassados escritores, romancistas e professores que devem estar se revirando na tumba, escreva "VC". Faz mais sentido, são as consoantes da palavra, todo mundo sabe o que significa e ainda tem a mesma quantidade de letras do tal "SE". 

Nem citarei os seres humanos que acrescentam "H" onde não existe, né amigahh? Ninghem mehhhrece.

Outro respeito com a nossa Língua se dá quando se respeitam suas regras. Toda Língua tem suas regras. Algumas complexas e nem sempre sabemos tudo, ainda mais quando se trata do Português. Mas pelo menos respeite aquilo que aprendeu na escola. A coitada da vírgula, por exemplo, está sempre fora do lugar. Vamos testar? Eu não consigo entender um texto assim, e você?

Exemplo: Dar e pois quando e hora receber o que vem de Deus pois os ceus estao ao teu lado.

É uma mensagem religiosa? É, porque identificamos a palavra Deus ali no meio, com letra maiúscula no início e tal.
Mas é confusa, não? Não tem acento, não tem vírgula, quem é o sujeito? Você nem consegue diferenciar "É" de "E".

Mas e se a frase fosse escrita assim?

Dar! Pois quando é hora, receber o que vem de Deus, pois os céus estão ao teu lado.

E se melhorássemos mais:

Dê! Pois quando for a hora, receberá o que vem de Deus, pois os céus estarão ao teu lado.

Agora sim, a frase fez mais sentido para você? Isso é o que acontece quando nos doamos a escrever e querer que o outro entenda nossa mensagem, respeitando o espaço da vírgula, acentuando, dando sentido à frase. Um tempo a mais gasto na escrita lhe salvará de comentários maliciosos, críticas embutidas, risadas e você ainda mostrará respeito à nossa Língua Portuguesa. 

E, antes tarde do que nunca, lembre-se: verbos como "DAR" e "LER" estão no infinitivo e devem concordar com verbos no infinitivo. Exemplo: DAR para receber / LER para aprender.

É comum ver frases como essa: Ai que vontade que DAR de comer chocolate!
O CERTO seria: Ai que vontade que DÁ ! (o DÁ não pode ser substituído por um verbo no infinitivo. Na dúvida, troque DAR por DOAR e veja se o sentido mudou nesse caso)

Ou: Ele LER porque gosta (a mesma situação)
O CERTO seria: Ele lê porque gosta (Experimente trocar LER por BRINCAR)

Tomara que você entenda e siga minhas dicas, são de coração.Como disse, não estou aqui para dar aulas e não sou professora, apenas não quero ver o Português ser mal-tratado nem pessoas sendo alvo de piadas. Lembre-se, escrever errado faz você passar vergonha e mostrar falta de respeito com a sua Língua. Não ignore o que aprendeu na escola. O que vou dizer aqui é bem clichê: é de suma importância para seu futuro.

Na ocasião, aproveito para parabenizar a todos que leram esse texto até o fim, afinal a leitura é o primeiro passo para corrigir seus erros de gramática.