quarta-feira, 27 de maio de 2015

CTI: Ver a morte para valorizar a vida!


"Ele assentou-se na cama, por vinte minutos!" - exclamou. A notícia logo é passada por telefone à tia, que se alegra. A tia liga para a filha, que liga para a prima, e logo logo a família inteira já sabe da novidade.

Parece uma bobagem, mas para quem ficou internado, entubado, deitado, calado e dopado por 45 dias, sentar-se na cama é mesmo uma grande vitória.

O ser humano apenas valoriza as coisas pequenas quando elas se tornam grandes. Quando se depara com a morte, ou quase morte, o ser humano valoriza a vida.

O rapaz que assentou-se na cama foi internado com uma infecção generalizada, causada por um problema no pulmão, causado por uma inalação de líquido de um aparelho respiratório que ele precisava usar após ter sofrido as complicações de uma trombose, causada pelo consumo de remédios para emagrecer.

Sim, o ser humano valoriza estética a ponto de buscar todas as alternativas, mesmo que uma delas o prejudique pelo resto da vida. Mas, o ser humano também sofre pela obesidade, sofre por depressão, sofre por não entrar nos padrões estéticos ditados pelo próprio ser humano. De tanto sofrer, julga-se necessário buscar os meios mais rápidos para tentar alguma alegria.

Estar no CTI não é uma alegria, a não ser quando se sai de lá. Ai sim! Desde que se saia vivo, é uma alegria largar o Centro de Tratamento Intensivo. Afinal, é lá que desencarnam pessoas dia após dia. É ali que se acumula todo o sofrimento de parentes e amigos. A choradeira reina.

No CTI, o ser humano se sente um animal e percebe o quanto é fraco. Preso à cama, é ali mesmo que faz suas necessidades e toma banho. É ali, no leito, que dorme, acorda, recebe medicação e passa o dia inteiro ouvindo seus batimentos cardíacos monitorados por um aparelho que faz "Piiii, piiiii, piiii" e quando dorme, o barulho entra em seu sonho, te acompanha. Medo mesmo é não ouvir mais o barulho.

Sair do CTI é mostrar para todos que "olha eu aqui, eu não morri". Sair do CTI significa reaprender a comer, conversar, andar e até mesmo assentar-se na cama!

O CTI é uma experiência de quase morte. Uma vez fora dele, a experiência é de recomeçar a vida e valorizá-la.

O rapaz saiu, já está na enfermaria e, cada ação que fizer como uma pessoa extremamente normal e sadia, será uma vitória tanto para ele, quanto para a família que o aguarda do lado de fora do hospital.